Jhonatan Maciel
Sou psicanalista. Atendo adultos em Pará de Minas e online para todo o Brasil, e fora do consultório o que me ocupa é estudar como o sofrimento mudou de forma nos últimos anos.
Principalmente na relação com a tecnologia: o que o uso de inteligência artificial e das redes sociais fez com as nossas relações. É um interesse curioso, e ele tem endereço. Trabalho no mercado de tecnologia desde 2007.
O que eu penso sobre o que chega até mim
O sofrimento não é novo. Freud já descrevia pessoas que não conseguiam parar, que se balizavam pelo olhar dos outros, que repetiam a mesma coisa sabendo que estavam repetindo. O que mudou foi o cenário onde isso acontece, e ele mudou rápido demais para que a gente tivesse tempo de perceber o que ele pede da gente.
Escuto pessoas que não conseguem ficar sozinhas com o próprio pensamento por dois minutos. Que dormem com o telefone na mão e acordam com ele. Que se comparam o dia inteiro com versões editadas de vidas que não existem. Que sentem culpa quando descansam, porque descansar virou tempo improdutivo. Que estão disponíveis vinte e quatro horas e chamam isso de flexibilidade.
Escuto também relações que foram sendo moldadas pela presença digital no lugar da física, e que passaram a funcionar por outra régua sem que ninguém tivesse combinado isso.
E escuto uma coisa mais recente, que ainda estou entendendo: gente que aprendeu a temer ser substituída por uma máquina, e que descobre no divã que o que dói não é perder a função. É ter sido tratada como substituível.
Nada disso é problema de tecnologia. É o que um sujeito faz com aquilo que tem à mão, e é disso que a psicanálise trata desde sempre.
Onde a técnica não alcança
Trabalho com tecnologia desde 2007 e hoje sou gerente comercial na LSoft. Sou formado em Análise e Desenvolvimento de Sistemas pela UFV.
Quem escuta isso costuma imaginar alguém diante de um código. Não é o meu caso há bastante tempo. Meu trabalho hoje é com gente: equipe, cliente, negociação, conflito, o que trava e o que não é dito. A tecnologia é o assunto. As pessoas é que são o trabalho.
Passei anos estudando tecnologia. E quanto mais eu estudava, mais percebia que o que travava as coisas quase nunca estava ali.
É de dentro dessa posição que eu falei com os alunos de TI da FAPAM: você pode dominar a tecnologia e ainda ter dificuldade para trabalhar com pessoas. Quando se fala em competência técnica, a lista é conhecida. Inteligência artificial, cibersegurança, automação, nuvem, dados. Existe uma parte da formação que quase não recebe a mesma atenção: escutar, conversar, negociar, lidar com conflito, construir relação.
Dá para dominar uma linguagem de programação e travar na hora de explicar uma ideia para o cliente. Dá para conhecer profundamente uma tecnologia e não sustentar uma conversa difícil com um colega. Muita técnica, pouca relação. É aí que muita carreira em TI emperra.
A técnica faz a máquina funcionar. O que acontece entre as pessoas também precisa ser escutado, e foi atrás disso que eu fui.
Conhecer esse meio não me traz tantas vantagens na escuta. Cada escuta em psicanálise parte de um lugar singular, e o que serviu para uma pessoa não serve para a seguinte. O que eu percebo é outra coisa: quem trabalha com tecnologia costuma falar mais solto comigo, porque sabe que não vai precisar traduzir o mundo em que vive antes de chegar no que dói.
O encontro com a psicanálise
Procurei o lado humano onde se costuma procurar. Liderança, negociação, persuasão, comunicação. Cada curso entregava mais ou menos a mesma coisa: uma técnica para aplicar em cima de uma pessoa. Nenhum deles explicava o que isso que faltava.
Numa aula de psicanálise, em 2016, encontrei uma coisa que eu não sabia que estava procurando. Não era outra técnica.
Foi ali que percebi que existia um profissional que cuidava d“isto”.
Escrevo assim de propósito, porque a frase carrega uma ambiguidade que ecoa até hoje na minha clínica. Isto é o isso, o inconsciente, aquilo que fala em nós sem pedir licença e que alguém pode escutar. E isto é também a pessoa inteira que está ali, com quem se constrói um cuidado que não vem pronto e não se aplica.
Comecei a estudar naquele dia e não parei.
Penso que a psicanálise tem uma dívida com o presente. Ela nasceu escutando o sofrimento de uma época e precisa continuar escutando o desta, sem transformar cada novidade em patologia nem fingir que nada mudou. É o lugar de onde eu escrevo e trabalho.
Quando um percurso termina, outro inicia
Fiz o percurso proposto pela Summus, 750 horas entre teoria, seminários, grupos de estudo, estágio supervisionado e análise pessoal. Comecei a atender em 2018, ainda no estágio supervisionado, e cumpri o percurso em 2020. O documento que recebi certifica esse percurso, não me entrega um título pronto, e faço questão da distinção.
Psicanálise é formação continuada. Ninguém termina.
Estou em análise pessoal há dez anos, hoje no quarto processo. Não digo isso como número, porque tempo de análise é assunto de cada um e a sociedade apenas propõe um referencial. Digo porque foi ali, e não na sala de aula, que fui notando que existem palavras para dizer coisas que antes eram só sentimento.
Também faço supervisão clínica. Sigo em seminários e congressos, dentro e fora da Summus, e em instituições fora do Brasil, como a APCIBA, de Buenos Aires. Sempre atrás de novas formas de escutar.
O silêncio na análise não é falta de resposta. Ele tem função, e é construído aos poucos.
- Formação de Psicanalista Clínico, 750 horasSociedade Psicanalista Summus de Minas Gerais
- Capacitação de DidatasSociedade Psicanalista Summus de Minas Gerais
- Conselho de ÉticaSociedade Psicanalista Summus de Minas Gerais
- Conceitos de Estrutura Neurótica em Freud e LacanAPCIBA, Buenos Aires
- Curso Básico de Psicanálise Estrutural, 88 horasFormação complementar
- O diagnóstico na clínica psicanalíticaNEPSI, Pará de Minas
- I Jornada Internacional de PsicanáliseInstituto ESPE
- Congressos Internacionais de PsicanáliseSociedade Psicanalista Summus, VII a IX edições
Transmissão
Uma parte do meu trabalho hoje é passar isso adiante.
Sou facilitador de grupos de estudo e didata na Summus, o que significa acompanhar quem está começando a formação. Participo do Conselho de Ética da Sociedade.
Transmitir psicanálise não é ensinar conteúdo. É sustentar a pergunta de alguém até que ela vire a pergunta dele mesmo, que é exatamente o que se faz na clínica, com outro enquadre. Quem só atende tende a se fechar. Quem transmite precisa se explicar, e se explicar obriga a rever o que se acreditava saber.
Continuo aluno enquanto faço isso. Não é modéstia, é a estrutura da coisa.
Se quiser continuar
Se você quer saber como o trabalho acontece na prática, sessão, frequência, primeiro encontro e o que fica combinado, escrevi tudo em outro lugar. Se prefere só conversar, é por aqui mesmo.